Debandada geral


Por Simão-Pescador, Praia das Maçãs.

Não encontro palavras para explicar, mas acho que estou a assistir a uma grande fuga do Brasil. Jatos provindos do país chegam lotados e no saguão dos aeroportos europeus vê-se famílias de brasileiros que chegam com expressão transtornada. Parece que estão a ser perseguidos.

Memórias do Aeroporto de Lisboa

Memórias do Aeroporto de Lisboa

Além de pescador, vez em quando faço negócios para empresas de turismo da região. Por isso, visito aeroportos para conhecer os desejos das pessoas chegam. Assim, já abordei alguns chefes de família para saber de seus interesses. Porém, os brasileiros sempre estão apressados que não têm tempo para conversar. Dou-lhes meu cartão de visita e poucos me retornam. Mas, sem exceção, todos têm dupla cidadania e desejam um imóvel em Portugal, de preferência situado no interior.

Oh! Raios me partam! Que coisa estranha, esses brasileiros estão a se esconder do quê?”. Isso atordoava minha cabeça de ‘brasilianista dedicado’.

Pensei em tudo para encontrar uma explicação que fosse pelo menos lógica. Seria a grave ameaça da falência do país? Ou os índices crescentes de morte por assassinato em quase todos os seus estados? Quem sabe, poderia ser o cansaço do cidadão ao ser diariamente assaltado pelas ruas? Ou seria a corrupção avassaladora que campeia no sistema público governamental?

Conclui que o cidadão brasileiro não se esconde de nada disso. Ele não tem medo, apenas nojo. Está sendo expulso e fugindo da vergonha em que se transforma o país.

Foi então que, após muito pesquisar os motivos da debandada de brasileiros, pude descobrir mais outra motivação desse processo, que sempre acontece de forma extrema no mês de abril.

Há muitos anos ocorre neste mês o auge da epidemia de dengue, que sempre assola todas as cidades do Brasil. Morre muita gente no país, mesmo que seus cientistas hajam produzido um macho “transgênico”de Aedes aegypti, a gerar rebentos que falecem ainda na fase de larva, o que acabaria de forma definitiva com a disseminação da doença.

Devo dizer que a produção e uso obrigatório do mosquito transgênico já devia ser lei federal no país. Cada metro quadrado de seu enorme território precisa ter três transgênicos a zumbir.

Entrementes, é muito provável que a debandada geral de brasileiros seja causada pelo facto de que haja inúmeros políticos no país que podem ter criado um modo de “ganhar dinheiro fácil justamente com a disseminação da doença”. Assim, pensariam esses políticos: “que se dane essa Ciência e seus experimentos prolíficos. Que morram todos os infectados, eu só tenho quatro anos pra roubar!”.

O corrupmentar


O legislador brasileiro, um gigante em quê?

Dado que atualmente o Parlamento é a “assembleia política onde se discutem os negócios do Estado”, conclui-se que, obviamente, “parlamentar é qualquer membro do Parlamento”. Maravilha! Descobriu-se o insondável.

Mas, de toda forma, é bom lembrar que a ideia de um Parlamento é bastante anterior à criação do Estado organizado. Diz a história que há cerca de 3400 anos já existia um órgão consultivo hebreu a que Moisés, ao liderar seu povo na busca da “terra prometida”, solicitava aos mais idosos opiniões, ideias e até soluções que pudessem facilitar aquela peregrinação imaginária. Parece que a estória de um antigo parlamento consta do Velho Testamento.

Talvez o mais antigo parlamento do mundo ocidental seja o da Grã-Bretanha, criado em 1200, durante o reinado de Eduardo I, na Inglaterra. É bicameral, composto pela Casa dos Lordes e a Câmara Baixa. Na prática, a Câmara Baixa é a mais atuante. Os Lordes quase sempre coçam o saco…

Mas o que interessa são os Parlamentos que efetivamente representam o povo, onde seus membros recebem pequenas ajudas de custo e, acima de tudo, são éticos e honestos. Assim é o Riksdagen, a assembleia nacional legislativa da Suécia.

A sede do Riksdagen

A sede do Riksdagen

Para começar, trata-se de um parlamento unicameral, composto por 349 “representantes”, eleitos pelo voto direto. É normal que residam em pequenos e modestos apartamentos, mas sem secretárias, assessores, seguranças ou carro com motorista. Afinal, o cidadão sueco não admite pagar por essas regalias, que considera desnecessárias e até extremas.

Após debates e muitas discussões internas, é o Presidente do Riksdagen quem nomeia o Primeiro-Ministro da Suécia. A este cabe formar o seu governo, apresentando novamente ao Riksdagen a lista dos ministros que deseja ver aprovada pelos “representantes dos cidadãos” – parlamentares.

O interior do Riskdagen

O interior do Riksdagen

Sendo assim, uma vez que o parlamento define o poder executivo naquele país, também pode dar um voto de desconfiança contra qualquer membro do executivo, levando-o à imediata exoneração, sem discussão. Porém, um voto de desconfiança ao primeiro-ministro significa que “todo o governo é exonerado” e um novo primeiro-ministro deverá ser nomeado pelo Riksdagen e refazer o ciclo democrático.

Crê-se que a prática política adotada pela Suécia funciona sem usar qualquer tipo de artifício populista. Cria condições reais para que o país possua um governo “do povo, pelo povo e para o povo”. Seu parlamento está sempre à disposição da nação, criando somente as leis que acrescentem valor à qualidade de vida de cada cidadão sueco.

Com Moral e Ética embutidas na alma política do país, tem-se a base essencial requerida para que qualquer cidadão sueco possa ter a honra de ser membro do governo ou, sobretudo, de seu Riksdagen.

Como se pode observar, a estrutura do sistema público da Suécia, além de ser democrática, é mais simples do que as encontradas na maioria dos países ocidentais, senão em todos. Claro que seu funcionamento não é perfeito, pois sempre podem ocorrer “desvios humanos”. No entanto, ninguém burla ou agride esse sistema impunemente.

Este é o axioma moral da nação sueca: se corromper ou for corrompido, então, por questão elementar de civilidade, será conduzido à prisão, seja você quem for.

Corrupção à la carte

Mas ainda há muitos países do 3º Mundo, como eram conhecidos em passado recente. Neles os atos de corrupção são oferecidos em cardápios oficiais e seus degustadores escolhem os que convém ao próprio apetite do momento. São processos sofisticados de escolha, que contam com a ajuda de maîtres especiais, os chamados “articuladores de negociatas”. Diria-se, “sommeliers de negócios escusos“.

Se antes a maioria desses articuladores não pertencia ao parlamento ou ao governo, embora neles transitassem como “íntimos amigos da Casa”, hoje são eleitos pelo voto do povo.

Mamão com açúcar! Passaram a ter escritórios particulares dentro do setor público, a receber salários escandalosos; a possuir assessores, secretárias, seguranças, passagens gratuitas de avião, carros com motorista, seguro-saúde, verbas especiais e outras “pechinchas e descalabros”.

Em suma, os “lobistas íntimos tornaram-se quadrilheiros públicos” e os “parlamentares normais tornaram-se corrupmentares sistemáticos!

Em alguns países esta classe política dotou-se de um poder inimaginável, que canibaliza diariamente o Estado. Assiste-se à maior pilhagem monetária da História da Imoralidade Mundial, enquanto seus povos definham em atitude e comportamento. Há que exonerar sumariamente os políticos que controlam o poder e trancafiá-los, é claro.

Estudos Ambientais: objetivos e indispensáveis


Que sejam claros e objetivos para se tornarem indispensáveis ao mercado.

Passados 38 anos da criação do Mercado Nacional de Estudos Ambientais, verificam-se três processos ocorrentes, que são básicos e racionais para a economia do setor:

  • A elaboração de metodologias ambientais, visando a atender às demandas do mercado;
  • Inúmeros cursos de graduação e pós-graduação que são oferecidos por universidades, para fortalecer esse mercado específico; e, por fim,
  • O expressivo contingente de estudantes que deseja realizar esses cursos, visando a atuar nesse mercado.

Na prática, as melhores metodologias compõem a Ciência do Ambiente. A Universidade, por sua vez, oferece-a a seus alunos. Por fim, os que são Formados com maior dedicação e afinco, a aplicam em empresas do Mercado.

Nos países que detém economia mais sólida e que possuem bom nível de civilidade, este é o processo normal da evolução das profissões que requerem uma formação superior. Para visualizar a sequência desse processo, veja o diagrama a seguir.

A filtragem própria da ação do Mercado

A filtragem própria da ação do Mercado

Em qualquer sistema econômico é o mercado que promove o desenvolvimento científico e, em consequência, a inovação com oferta de tecnologias. Essa assertiva pode ser considerada arriscada, dado que, em tese, fazer ciência depende apenas de escolas apropriadas, centros de pesquisa e cabeças inovadoras.

Todavia, na visão aqui defendida, professores, alunos, cientistas e pesquisadores são parte do mercado produtor e consumidor de novas abordagens científicas. E no segmento ambiental não é diferente, pois esse mesmo processo ocorreu no Brasil, enquanto houve um bom mercado produtor e consumidor.

Apenas em função de sua tenra idade, boa parte da Ciência do Ambiente disponível foi criada e desenvolvida por estudiosos avulsos do tema, fora dos quadros da Academia. Claro que as universidades também contribuíram para realizar essa tarefa. No entanto, seus cientistas e pesquisadores sempre levaram em conta os conhecimentos acumulados pelos especialistas no assunto.

De toda forma, no curto período 1986-2007, a Universidade formou e cedeu ao mercado várias turmas de profissionais de qualidade ao setor ambiental, tanto para atuarem em organizações públicas, quanto em empresas privadas.

Estudos Ambientais versus Investimentos

A partir de 2008, em função da crise financeira mundial, embora a Universidade mantenha sua fábrica em plena atividade, o mercado gradativamente foi-se acanhando.

No Brasil, os investimentos públicos e privados foram reduzidos a partir dessa data. A política adotada pelo governo era apenas a de fortalecer o consumo interno:

─ “Comprem geladeira, televisão, máquina de lavar e um carro que nunca tiveram”, dizia o canhestro chefe do executivo que, após liberar o crédito, acreditava que poderia aumentar a demanda num mercado global. Essa medida pontual causou um pequeno impacto na economia, mas somente durante o ano de 2010. E, obviamente, não se sustentou[1].

Por outro lado, a legislação ambiental tornou-se ainda mais restritiva aos investimentos produtivos, por demandar estudos ambientais cada vez mais complexos e onerosos para que fossem implantados novos empreendimentos.

A resultante dessas duas variáveis – a queda do investimento e a crescente interferência legal – fez com que o mercado de estudos ambientais sofresse expressiva redução. Afinal, sem investimentos não há estudos de impacto, implantação de programas ambientais ou auditorias. Vale dizer, estas eram as principais práticas demandadas por esse mercado.

Em suma, é triste ver o cenário em que vive hoje a consultoria ambiental no país: perda de incontáveis postos de trabalho, fechamento de empresas dedicadas ao setor, aquisição de consultoras nacionais por empresas estrangeiras e, ainda que de forma legal, os principais contratos ambientais pertencem ao portfólio de empresas da engenharia civil.

Nada contra as consultoras em engenharia, mas elas só dominaram o mercado ambiental até o início dos anos 1990. Tê-las de novo à frente, em 2014, pode ser um perigoso retrocesso para o setor, assim como seria estranho se escritórios de advocacia passassem a elaborar projetos de engenharia.

Sugestão

Há meios para reverter o cenário de possível estagnação do setor. De outra forma, reorientá-lo com um novo rumo Norte. Embora o mercado seja seu maior estímulo, cabe à Academia transferir sua inteligência. Assim sendo, cabe aos especialistas a produção de textos didáticos e práticos, que orientem universitários para atuarem neste segmento econômico.

Há empresas que precisam participar da Fábrica de Inteligência. São obras da iniciativa privada e que foram organizadas para oferecer treinamento intensivo no uso de metodologias ou modelos atualizados que compõem a Ciência do Ambiente. Essas empresas têm como foco principal os profissionais do setor e aqueles que cursam o último período da graduação.

Tendo como premissa estratégica que investimentos produtivos voltarão a ocorrer no país, acredita-se que os estudos ambientais precisam se tornar mais objetivos e, em consequência, menos onerosos. Cabe ao Estado rever a legislação ambiental vigente, de forma acompanhar a dinâmica do mercado, e permitir que os Estudos Ambientais sejam aceitos e indispensáveis, sem dores para os bolsos dos investidores.

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[1] O canhestro não tinha ideia que a oferta de produtos manufaturados estava congelada. Acelerar o consumo interno naquelas condições, derrubando a taxa básica de juros, era o mesmo que dinamitar a inflação. Por sinal, a inflação foi represada de maneira arriscada, por força da chamada “contabilidade criativa”, que atrapalhou as finanças das empresas estatais envolvidas.

Fábula de 50 anos


Por Ricardo Kohn, Escritor e Consultor em Gestão.

Tudo no Brasil é estranhamente comemorado ao completar 50 anos. Tem-se os incontáveis cinquentenários de municípios em festa, o esquisito cinquentenário da Lagoa de Itaenga (!), a Dança do Cinquentenário – comemorada na Praia do Buraquinho – e até mesmo a asfáltica Avenida do Cinquentenário que, após ser concretada como um símbolo para tudo que tem 50 anos, foi esquecida por muitos no dia seguinte ao de sua inauguração. Restou-lhe só o nome, como uma eternidade póstuma, dedicada a 50 anos. Sequer sei onde fica mas, pela lógica, pode estar esburacada ou mal remendada, tal o focinho de quem contratou a obra.

Vista aérea da Praia do Buraquinho, ao norte de Salvador, Bahia

Vista aérea da Praia do Buraquinho, ao norte de Salvador, Bahia

Por outro lado, as festas públicas têm custo e, a depender do motivo, podem requerer obras. Fico a pensar por quê essas festanças interessam tanto a prefeitos e vereadores. São políticos pequenos – não se trata de redundância – de municípios que foram distritos emancipados a fórceps e que, por serem totalmente improdutivos, sobrevivem às custas do Fundo de Participação Municipal. Isto é, dos tributos escorchantes que pagamos[1]. Por sinal, tributos que continuam a crescer em 2014, visando a manter a indecente máquina pública federal.

Se há alguma coisa de positiva nesses eventos, deve-se apenas ao fato que são festas e não enterros de cadáveres. Mas é óbvio que também podem ser um bom instrumento para desvios de verbas públicas, distribuição de várias propinas e corrupções menores para desobstruir espaços mais apertados. Acredito que, desgraçadamente, a maior parte dessas festas tenha essas finalidades como foco principal de seus promotores públicos.

O paradoxo faz 50 anos

Mas nem todos os cinquentenários fazem festas públicas comemorativas. Ontem a revolução civil-militar que derrubou o governo de Jango Goulart e permaneceu ditatorialmente no poder durante 21 anos, completou meio século.

Pelo fato de tê-la vivido desde o início, como um pré-universitário consciente, fico revoltado em ser obrigado a relembrá-la. Sobretudo, ao ler revistas e jornais que assino. Na maioria, conseguem explicar as barbaridades cometidas por ambas as partes: militares e terroristas, para usar as mesmas palavras de líderes dos enfrentamentos de então.

Todavia, por algum bom motivo, em 2014 a imprensa brasileira resolveu fazer um verdadeiro carnaval ou semana santa sobre o que hoje chama de Golpe militar. Isto porque em 1964, diante de uma tendência de migração do país para uma espécie de “socialismo sindical”, a mídia apoiou a derrubada do governo, junto com a maioria da classe média e empresários privados.

Pessoas em sã consciência assim se comportaram por acreditar que o regime militar seria passageiro. Um ajuste de caminho ideológico. No entanto, com o surgimento de lutas urbanas, de grupos de armados querendo implantar no Brasil a “ditadura do proletariado”, em resposta, os militares fecharam o sistema político.

Nas ações de parte a parte sucederam assalto a bancos, prisões, torturas, assassinatos e, ao fim, sequestro de embaixadores como moeda de troca. A ditadura militar endureceu, sempre servida por vários ministros civis, e a sociedade brasileira se danou.

O que está a acontecer

Os atuais donos do poder ou são membros dos partidos que receberam opositores da ditadura militar, ou são “os próprios participantes da luta armada”, como é o caso da atual presidente, que diz haver “lutado pela democracia” e sido torturada. Por sua vez, Fernando Gabeira disse numa entrevista que o papo era completamente outro, pois lutava mesmo pela “ditadura do proletariado”. Decerto, alguma tv ou alguém possui o vídeo gravado dessa entrevista.

Tendo vivido o período 1968-1978 com boa lucidez política, acredito nas palavras de Gabeira. Afinal, foi o que pude assistir. Porém, o que me assusta é a aparência do revanchismo que está a se instalar. Se for para rever a Lei da Anistia – um absurdo monumental –, que também seja “ampla, geral e irrestrita” para ambos os lados.

Para sorte da sociedade brasileira parece que os militares atuais são calmos, permanecem na caserna ou fundeados.

Não tornarei a falar desse assunto.

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[1] Neste ano, até 1º de abril de 2014, o Impostômetro está prestes a alcançar a casa de 437 bilhões de reais em tributos, pagos essencialmente por brasileiros.

Dia da Mentira


Por Simão-pescador, Praia da Maçãs.

Simão-Pescador

Simão-Pescador

Faltam apenas 9 dias para a chegada de mais um 1º de Abril, dia conhecido pelas mentiras que todos gostam de pregar nos amigos. Nos países de língua inglesa, chamam-no de “Dia de Tolos” – Fools Day. Nós, portugueses, consideramos esse título imbecil. Dia de Idiotas só é perfeito para países do Reino Unido.

Mas, de toda a forma, no mundo ocidental essa data é uma espécie de Interstício da Verdade. A mentira é noticiada seriamente, mas trata-se tão-somente de uma infantil brincadeira. Creio, como é dito no Brasil, que é “só de sacanagem”.

Lembro-me dos tempos de infância quando caía nessas “pegadinhas”. Acreditava em tudo o que me contavam e não passava um Dia da Mentira sem ouvir do coro de vozes dissonantes o estridente refrão:

─ “Caiu no 1º de abril!”.

Era sempre seguido de gargalhadas de colegas e amigos, que me ruborizavam e faziam-me sentir raiva da própria inocência.

Trago na memória estes factos que, decerto associado a fatores genéticos e comportamentais – que sei eu?… –, de alguma forma influenciaram-me a capacidade de crítica. Quase tornei-me desconfiado, não tivesse desde cedo a extrema vontade de ser extrovertido.

Hoje, próximo a completar 98 anos de idade, exatamente em 1º de Abril, saudável e extrovertido, reli os textos que publiquei neste site, com destaque para a “Carta aberta da Estremadura”. Pude verificar coisas curiosas, todas endereçadas “a sua senhoria”. Não vou entrar em detalhes sobre elas, mas, em suma, a longa experiência da vida de um pescador artesanal é suficiente para prever quando “o mar não está para peixes”, ainda que estejam “blindados” por furiosos tubarões de goela larga.

Desta maneira, sua senhoria, continuo a desejar-lhe mais do que extrema sorte, pois é muito provável que “seus tubarões de estimação” estejam a planificar coisas estranhas contra a capacidade do país boiar, levando-a, junto com seu antecessor, à reboque para o fundo de águas escuras. Sua herança política realmente foi maldita, disso não tenho dúvida alguma.

Mas, afinal, a senhora continuou a dar margens a isso durante sua jornada em todos os cargos públicos que ocupou. Sua retórica é desatinada, seus espasmos gramaticais são ininteligíveis. Dão a impressão que, há mais de 11 anos, o calendário anual do Brasil possui 365 dias iguais ao 1º de Abril. Todos dedicados ao exercício da patranha e da corrupção.

O justo direito humano


Remontam a duas nações da Mesopotâmia – Babilônia e Pérsia – as primeiras referências conhecidas sobre deveres e direitos dos indivíduos. Constam do Código de Hamurabi e, posteriormente, do Cilindro de Ciro. Ambos cunhados há mais de 3.500 anos.

Código de Hamurabi cunhado no totem

Código de Hamurabi cunhado no totem

No entanto, em pleno século 21, está-se diante de um frágil cenário mundial na questão dos direitos que qualquer cidadão precisa possuir: os ditos direitos humanos.

Todavia, para um indivíduo ter direitos inalienáveis, também é essencial que cumpra com deveres consagrados pela sociedade moderna. Ou seja, cada indivíduo precisa atender aos deveres da cidadania.

Essas são as condições básicas da civilidade, a qual permite, em tese, o debate e o convívio de pessoas em sociedades civilizadas. Porém, esse discurso somente é viável para famílias, entre bons amigos e mesmo em pequenos grupos de indivíduos. Todavia, quando se consideram os “Estados Nacionais e sua Soberania”, esse discurso parece utópico.

Em função da cultura e da educação de povos e de seus governantes, ou, mais precisamente, pela falta total delas, a “universalidade dos direitos humanos”, proclamada aos sete ventos pelas Nações Unidas, é mera retórica de microfone. Nesse cenário destacam-se nações que naufragaram na tal da Primavera Árabe – Tunísia, Egito, Líbia, etc.

Contudo, há quadros ainda mais graves. Ocorrem em países que se encontram mergulhados na Síndrome da Bestialidade, onde o direito do cidadão simplesmente não existe. Foi abolido à força. São os casos explícitos das ditaduras de Cuba, Venezuela, Coréia do Norte e Síria, esta última a sofrer uma brutal convulsão civil.

Mas não se encerram com estes dois grupos as ameaças aos direitos civis. Têm-se ainda os Estados acometidos pela Síndrome Carnavalesca, que tem como alvo final a desorganização completa dos seus sistemas político, executivo e jurídico. Há várias nações que, de forma incisiva, demonstram estar possuídas por essa síndrome.

Muito embora sigam por caminhos distintos rumo à derrocada, nelas há sintomas evidentes de alguns fenômenos idênticos, a saber: corrupção governamental, ausência de gestão, discursos sistemáticos a desdizer o que fora dito ontem, promessas e patranhas para seus povos, enriquecimento ilícito de líderes, enfim, a nação torna-se uma tramoia particular das quadrilhas que a dominam.

Pensar na aplicação do princípio de talião nesses países não constitui absurdo. Até porque esse princípio, que data de 1.780 a.C., instituído na Babilônia pelo rei Hamurabi, visava a impedir que os cidadãos fizessem justiça pelas próprias mãos. Assim, instituiu a reciprocidade entre crime e castigo, comumente chamada de “olho por olho, dente por dente”.

Apenas como exemplo, cita-se como um juiz brasileiro aplicaria a Lei de Talião em seus julgamentos:

─ Gostais de “carnavalizar” o país? Pulareis “carnaval” diariamente, durante o resto de vossa vida.

Roubastes? Pois sereis roubado na mesma e exata medida!

Matastes? Sereis morto de forma idêntica e sumária.

Enriquecestes ilicitamente? Perdereis todas as vossas propriedades em igual valor, logo após serdes castrado.

Pelo simples fato de que cidadãos criminosos estariam a cumprir fielmente com seus deveres, o justo direito humano estaria atendido com a aplicação desta lei milenar.

No entanto, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, diz o seguinte em seu Artigo 1º:

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.” Faltou aqui a conclusão: “…, caso contrário, cumprirão as penas da lei”.

De toda forma, cabe ainda explicitar uma restrição no texto desta Declaração Universal:

─ “Válido apenas para seres humanos”.

Não vou trocar de óculos


Por Ricardo Kohn, Escritor e Consultor em Gestão.

Diversas abordagens teóricas das Ciências do Ambiente pedem (quase imploram) para serem levadas aos educandos de maneira diversa da que tem sido tradicionalmente adotada.

Não há dúvida que a tradição universitária conseguiu alcançar um nível magnífico para seus cursos: salas de aula confortáveis, uso de notebooks por alunos, auditório para palestras de especialistas, seminários, coffee-breaks, slides de alta qualidade e belos vídeos projetados em telões. É bem verdade que esse é o cenário de pouquíssimas universidades brasileiras, mas a tendência é que seja replicado por mais Escolas.

Todavia, de forma mais específica, a teoria relativa à Gestão do Ambiente necessita de algo além do que essa excelente prática acadêmica é capaz de ensinar. É sobre essa afirmação que ofereço uma proposta.

Evolução

Em passado não muito remoto, as salas de aula só dispunham de quadro-negro, punhados de gizes coloridos e, no limite da tecnologia, um retroprojetor rotativo. Era uma engenhoca mecânica que, para funcionar direito, exigia a “cerrada marcação do mestre sobre a máquina”. A educação superior apresentava um quadro meio bizarro.

No entanto, até fins da década de 1970, quando ainda não existiam tecnologias capazes de dar suporte às aulas – similares às atuais –, a inventiva criava a ação. Por livre opção, visando a oferecer mais realidade às suas turmas, alguns “mestres especiais”, de forma espontânea e abnegada, conduziam seus educandos para investigar in loco, no campo, o objeto de estudo que antes fora debatido em sala. E olhem bem, davam aulas de graduação em administração, engenharia e arquitetura. Imaginem o que fariam com a Gestão do Ambiente?

"Sala de aula no campo"

“Sala de aula no campo”

Faço uma analogia ao deduzir que a educação universitária brasileira parece “jogar na retranca”. Pois, ainda hoje, subutiliza métodos educacionais conhecidos, esquecendo-se de transferir para o presente algumas das suas melhores práticas do ensino, criadas e aplicadas no passado.

Motivação

Não obstante a evolução de métodos e práticas de ensino, hoje capazes de produzir aulas presenciais magníficas, nelas, o Ambiente, foco principal do interesse dos alunos da Gestão do Ambiente, tem sido um “protótipo invisível”, uma abstração que, embora esteja carregada de tecnologia, somente traz cheiro de ar condicionado.

Não há terra molhada por perto, não se escuta o farfalhar das corredeiras, não há brisa, nem piado de pássaros. Os conceitos recebidos em sala não são vistos pelos alunos como coisas concretas! Assim, mestres e alunos mais parecem leões famintos trancafiados em jaulas. Falta-lhes espaço para a criatividade, pois necessitam de campos abertos.

Faltam alunos com disposição de aprender?

Faltam alunos com disposição de aprender?

Dizem alguns cientistas da teoria do conhecimento que tudo no Ambiente deve ser interpretado a partir da posição em que se encontrar o observador que o visualiza e da qualidade das lentes que se estiver portando. Em suma, trata-se de uma questão de perspectiva, para obter a capacidade de observa-lo em seus melhores detalhes.

Por analogia, quando se vai ao teatro, em tese é possível escolher a localização para assistir à peça: galeria, plateia, balcões, frisas, camarotes, etc. De cada posição selecionada tem-se uma perspectiva própria.  Os mais devotados a essa arte chegam a portar pequenos binóculos para aproximar o palco e assistir à peça em detalhes (herdei um deles de minha avó). Assim, ainda que eles próprios não saibam, confirmam, através de atos inconscientes, a experiência dos velhos gregos que fundaram a teoria do conhecimento – os epistemólogos.

Voltando à realidade, o mesmo pode ocorrer nas salas de aula. O ator principal é o “mestre” e a plateia são seus educandos. Porém, nas salas há limites severos: são menores e fechadas e, embora tenham janelas, ninguém ousa abri-las. Querem manter os efeitos do gélido ar condicionado em seu restrito ambiente.

Dúvidas e esclarecimentos

Seguindo a linha de raciocínio de epistemólogos atuais, antes de tudo é necessário encontrar a melhor posição para observar o Ambiente. Assim torna-se possível aprender algo acerca da dinâmica dos ecossistemas que o compõem, bem como conhecer os agentes e vetores que promovem sua permanente transformação.

Decerto, a melhor posição para obter esses conhecimentos não se encontra no interior de um prédio urbano, mas fora dele. Na verdade, encontra-se no interior do próprio Ambiente que se deseja conhecer. Em minha experiência foi importante “senti-lo na própria pele”, vivenciá-lo em sua performance, acompanhar de perto sua dinâmica. Diria mesmo, sentir seu cheiro real e o de suas comunidades naturais.

Mas ainda resta saber como identificar a lente de qualidade adequada, ou seja, a teoria ambiental através da qual é possível enxergar e detalhar o Ambiente que se deseja conhecer: o primitivo, o rural e o urbano. O setor da educação acredita piamente que existem muitas. Mas, francamente, discordo dessa posição e posso explicar o motivo.

Na área das ciências humanas e sociais a maioria das instituições públicas brasileiras ainda acredita que os “preceitos legais” devam determinar o que pode ser Teoria e Ciência. Na área das Ciências do Ambiente essa espécie de aberração existe há décadas e permanece a ser intensificada neste século.

Creio que, por mera questão lógica, deva ser exatamente o contrário: especialistas, teóricos, cientistas e pesquisadores independentes precisam propor as leis ambientais que, depois de muito debatidas, poderão ser acatadas pelo Parlamento do país. Nada me parece mais óbvio do que isso.

Curso Sobre o Ambiente

A partir dos argumentos apresentados decidi divulgar uma ideia que tenho há algum tempo, qual seja: realizar cursos Sobre o Ambiente com mais ênfase nas atividades de campo. Por exemplo, o professor apresentaria a teoria do tema em sala de aula durante 50% do tempo do curso. A outra metade seria realizada em campo, com os alunos aplicando, testando e vivenciando a teoria recebida. É lógico que a presença do “mestre” é essencial.

Claro que há questões de logística a serem superadas nesse processo. Mas nada que um bom planejamento não resolva.

Acredito que os resultados dessa prática beneficiarão a todos, alunos e professores. O velho chavão “a teoria é diferente na prática” seria anulado. Daria lugar a uma postura bem mais razoável e produtiva: “a melhor prática sempre resulta da teoria bem aplicada”.

Escolas de engenharia de minas, biologia, engenharia florestal, geologia ou agronomia, dentre outras, têm tudo para tornar mais concreta essa postura universitária.

Entretanto, instituições de ensino superior brasileiras ainda não oferecem uma grade de cursos ambientais com esse formato. Porém, há uma boa demanda, pois muitos brasileiros já frequentaram cursos desse gênero em escolas canadenses, europeias e norte-americanas.

Não pretendo trocar as lentes do meu óculos. Foi através delas que creio haver aprendido a me posicionar no Ambiente. Por isso acho que um projeto-piloto de curso intensivo, com características de sala e campo, deva ser testado por uma universidade brasileira ou mesmo por uma empresa de treinamento. Embora já esteja conversando com universidades, coloco-me à disposição para discutir essa ideia.

Vereda em mata de restinga

Vereda em mata de restinga