Ineptocracia


Política “hereditária e furtiva”

Ineptocracia constitui o sistema político de governo onde os incapazes de liderar são eleitos por incapazes em produzir. Nesse sistema os membros da sociedade com menores chances de se sustentarem, são recompensados pelo governo com doações de bens e serviços pagos pela riqueza confiscada de um número cada vez menor de produtores.

Pode parecer paradoxal, mas é fato corriqueiro no país, sobretudo, com extrema frequência nos últimos 11 anos.

Esse conceito remete-nos a reflexões da filósofa russa, Ayn Rand:

Quando você perceber que para produzir precisa obter a autorização de quem nada produz; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia “por meio de favores”; quando ver que muitos ficam ricos pelo suborno e pela influência, mais do que pelo trabalho; que as leis não nos protegem deles, ao contrário, protegem-nos de nós; quando concluir que a corrupção é recompensada e a honestidade se torna ato de auto imolação, então poderá afirmar, sem medo de errar, que sua sociedade encontra-se condenada“.

Há estados brasileiros que ainda existem dessa forma, a viver sob o regime das Capitanias Hereditárias. Porém, o que mais salta aos olhos é o estado do Maranhão.

Numa terra sem lei, os Sarney comandam a capitania há 48 anos, com a glória da liberdade que dão a si próprios. Os maranhenses são seu gado mais manejável. A política que instalaram, com economia desastrosa, apenas serviu para “engordar os bolsos da Família”.

Dentre seus inúmeros bens imóveis e meios de comunicação, destacam-se a mansão na Praia do Calhau, situada na região mais cara da orla de São Luiz, e a Ilha de Curupu, onde construíram mansão de veraneio para receber “amigos e convivas especiais”.

Pequena mansão da Família na Ilha de Curupu

Pequena mansão da Família na Ilha de Curupu

Mas um fato é no mínimo curioso. Nascido de família pobre, com o nome José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, o criador e chefe do clã era conhecido na juventude como José do Sarney”, numa referência ao nome de seu progenitor.

Todavia, quando resolveu seguir a “carreira política”, adotou o codinome “José Sarney”, por muitos interpretado como “José Sir Ney”. Talvez, dada sua “estranha nobreza britânica” no trato furtivo do dinheiro público e a poderosa riqueza particular que nele teve origem.

Percebendo uma remuneração de funcionário público eleito – governador, deputado, senador, governador e presidente da república, uma “puta carreira”, como dizem os portugueses – Zé de Ribamar tornou-se milionário – talvez bilionário – assim como seus três filhos, para quem realiza “doações de bens”, sempre que pode.

O filho mais velho, Zequinha, é político de 4ª categoria. A filha Roseana, também política, está governadora do Maranhão pela segunda vez. Foi até mesmo candidata à presidência da república e, segundo as pesquisas de intenção de voto à época, liderava a campanha até que foram descobertos “1,34 milhão de reais”, em dinheiro vivo, no escritório de Jorge Murad, por sinal seu marido e secretário do estado, nomeado por ela. A propósito, não custa contar que Murad é conhecido no mercado como o “mala de Sir Ney”.

Por fim, o filho mais novo, Fernandinho, se diz empresário. Do quê, ninguém sabe ao certo. Trata-se de um empresário “faz-tudo”, que até já esteve encalacrado com a Polícia Federal [1]. Mas convém lembrar que os três filhos de Zé de Ribamar aparecem no cadastro do Ministério da Comunicações na qualidade de sócios de dezenas de emissoras de rádio e televisão. Quem sabe não foram doações do papai?

De volta a Roseana

Nessa última semana a imprensa denunciou acintes cometidos pela governadora na tentativa de adquirir víveres para seu cerimonial. Como chefe do governo do estado mais miserável do país, Roseana decidiu licitar a compra de 80 quilos de lagosta fresca, 2,4 toneladas de camarão, 750 quilos de pata de caranguejo, 50 potes de foie gras, 300 unidades de panetone, caviar, salmão e bateladas de champanhe importado, além de uísque escocês e vinho de qualidade – francês, italiano, espanhol, português ou chileno.

Esses viveres, de “primeira necessidade” para os Sir Ney, tinham o custo estimado de R$ 1,1 milhão de reais. Parece que se tratava de valor subfaturado ou, quem há de saber, de produtos contrabandeados

Mas isto sem contar com os obrigatórios talheres de prata, copos e taças de cristal, mesas e cadeiras de madeira estilo Tiffany, Dior ou similares. E, para manter a sobriedade familiar, mesas forradas com toalhas de linho também faziam parte da lista de produtos a serem licitados.

Ainda que a licitação não haja ocorrido, trata-se de mais um exemplo da sociopatia que é acometida pelos cargos públicos no Brasil, não por seus ocupantes. Aqui, os cargos públicos costumam ficar delirantes, sem motivo aparente. É uma pena que ainda não sejam encarcerados em hospícios de segurança máxima.

Enquanto isso…

Dentre os 62 presos assassinados em 2013 no Maranhão, dia 17 de dezembro passado, três presos foram torturados e decapitados por internos rebelados, no Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Há um vídeo na internet que comprova essa delinquência, que parece ser natural nesse estado.

Que postura arrogante... - Reprodução da Folhapress

Que postura arrogante… – Reprodução da Folhapress

Mas, enquanto isso, dona Roseana e seus convivas, bebiam champanhe, vinhos importados, uísque escocês. Saboreavam caviar, lagosta, camarão, salmão, foie gras e outras iguarias, sempre em mesas forradas com toalhas de linho.


[1] Segundo o jornal Estado de São Paulo, Fernando Sarney foi indiciado em 2008 e 2009 pelos crimes de formação de quadrilha, gestão de instituição financeira irregular, evasão de divisas, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. O amoreco do papai está progredindo sempre, pois continua solto mesmo após haver enviado 1 US$ milhão para um banco em Qindao, China. Leia mais, e muito mais, em Estadão.

Decisão de Michelle Obama


Reflexão pública não custa caro, ao contrário.

Na qualidade de Primeira Dama dos EUA, a Juris Doctor Michelle Obama [1] parece haver escandalizado o mundo ao sugerir que todos os seus convidados para a a festa de seus 50 anos [2], a ser realizada na Casa Branca neste mês de janeiro, comam antes de sair de casa.

Michelle Obama está preocupadíssima com a mídia mundial

Michelle Obama está preocupadíssima com a mídia mundial

Achei a atitude da Dra. Michelle dotada de profundo espírito público, sobretudo a considerar o crash da economia norte-americana a partir de 2008, causado pela ganância de “financistas” e pela total incompetência do texano-idiota, senhor George W. Bush.

Ao contrário, seria uma lástima se, no momento em que economia norte-americana começa a se solidificar – conforme é esperado –, a Primeira Dama servisse a seus convidados champanhe de primeira linha, caviar russo, loco, ostras e vieiras chilenas, vôngoles e, como pratos principais, um cardápio sofisticado da cozinha francesa, pagando rios de dólares aos três melhores chefs de cuisine franceses, todos importados para a data.

Esta seria a atitude própria de uma analfabeta do 3º mundo ou de uma vigarista aboletada no poder. Por sinal, se considerarmos também o “Primeiro Damo”, os brasileiros já viveram (e vivem) esse cenário hediondo em diversas ocasiões e de inúmeras formas. Sobretudo, nos casos de bilhões de reais em empréstimos a países africanos e latino-americanos, perdoados pela “presidência da república”. Conhecem este cenário muito bem, assim como suas consequências aéticas, imorais e economicamente nefastas. Aqui sequer falo da corrupção que está a reboque desses bilhões.

Reprodução do site Sabor Digital

O mijão -Reprodução do site Sabor Digital

Retornando a Dra. Michelle. Uma série de pampanátas (babacas), ditos jornalistas, condenou a atitude de Michelle, dizendo-a uma flagrante falta de educação, um constrangimento para seus queridos convidados. Chega a ser patético para um profissional da imprensa não ter nada melhor para noticiar de forma tendenciosa e superficial.

A festa é da aniversariante, promovida por ela na Casa Branca. E a Dra. Michelle, mantendo sua ampla simpatia, decidiu com essa simples condição: “vou servir somente “comes e bebes”; quem quiser “encher a pança” faça-o antes em casa”. Decerto usou outras palavras.

Para finalizar esse registro, atenção senhores jornalistas! Perguntem à dona Roseana Sarney, quem vai pagar por seu simplório pedido de 90 quilos de lagosta fresca, camarão, salmão e sorvetes para sua comilança de 2014? A um custo aproximado de hum milhão de reais, por acaso terá sido uma receita médica de rotina?

Retornem ao passado recente e perguntem ao molusco quanto custaram e quem pagou as festanças realizadas na Granja do Torto? Ao custo de vários milhões de reais, pagos com dinheiro público. Não acham, senhores jornalistas, que se trata de uma barbárie pública?!

Granja do Torto, um nome perfeito para a “residência oficial da republiqueta“: tem-se uma Granja e nela habita um Torto ou…


[1] Graduada em Direito pela Universidade de Princeton e Juris Doctor pela Universidade de Harvard.

[2] Nascida em Chicago, a 17 de janeiro de 1964.

A imprensa nas eleições de 2014


Pouca informação e comentários conflitantes.

Houve o tempo em que a Igreja detinha o poder quase absoluto do Estado. Todavia, somente em Estados autocráticos e não liberais, que eram a maioria dos então existentes. Mas isso aconteceu no passado longínquo das monarquias originais da Europa e acabou há muito.

É do fim do século 20 a nova visão de que nações liberais e democráticas possuem três principais agentes do poder: o Governo Central, as Forças Armadas, e o Mercado. Parece ser bastante razoável.

Já foi feita uma analogia desses poderes com um triângulo, onde cada lado representa um agente. Contudo, a partir do século 21, senão um pouco mais cedo, entrou em cena a Imprensa, em busca de conquistar o quarto poder principal. Tal desejo é compatível em nações sólidas, que tenham povo educado e Governo Central democrático. No entanto, não torna o triângulo em quadrado, mas em um novo corpo, que pode ser chamado de Poliedro do Poder.

O Poder, segundo Henfil

Queremos o Poder, por Henfil

Esse corpo (não geométrico) fica formado por quatro faces irregulares, com arestas, vértices e inteligências bem sensíveis e dinâmicas. Por isso a área de cada face é variável, de modo a que mantenham um conjunto de forças com balanço estabilizável, todavia, não equilibrado.

Ao considerar-se como exemplo uma “nação sólida, mas de classe média”, as faces desse Gigantesco Poliedro são assim descritas:

  • Face do Mercado – provida de bancos, indústrias, agropecuária, equipamentos de infraestrutura, universidades, comércio e serviços. Decerto é a mais ampla de todas as faces, dado que oferece à nação ciência, tecnologia, trabalho, riqueza e a maior parte do PIB nacional. Torna-se sustentável do ponto de vista econômico-financeiro, bem como é capaz de manter viáveis as demais faces.
  • Face das Forças Armadas – constitui o ambiente de defesa da nação, com recursos humanos treinados, máquinas e equipamentos suficientes para suprir as necessidades da Aeronáutica, do Exército e da Marinha nacionais. Trata-se de uma face dinâmica que precisa variar de acordo com as mudanças do nível de ameaças externas.
  • Face do Governo Central – envolve os poderes executivo, judiciário e legislativo, bem como exclusivamente instituições públicas imprescindíveis e de alta qualidade social, como universidades, escolas, hospitais, segurança e profissionais capacitados. Para que uma nação seja sólida e assim permaneça, esta precisa ser a menor face do Poliedro do Poder. Além disso, sob nenhuma hipótese, o Governo Central concorre com a Face do Mercado.
  • Face da Imprensa – é provida por organizações privadas de telecomunicação, companhias de televisão, empresas editoras de jornais e revistas. Muito embora faça parte da Face do Mercado, possui a missão singular de divulgar pública e criticamente o desempenho de todas as faces do Poliedro, sobretudo o seu próprio.

Dessa descrição, ainda que superficial, é possível tirar algumas conclusões acerca dos riscos adversos provenientes das variações das áreas de cada face. Senão, vejamos.

A Face do Mercado

O Poliedro somente existe em função do desempenho da Face do Mercado, sua maior face. Todos os seus componentes pertencem à iniciativa privada. Se ela decair em desempenho, o Poliedro é enfraquecido, com tendência a se estagnar.

A Face das Forças Armadas

Se essa face for desnecessariamente grande em relação às demais, há grave risco de a nação deixar de ser liberal e democrática. Nesse caso, toda a Teoria do Poliedro invariavelmente “vai para o espaço”.

Atenção similar deve ser dada ao enfraquecimento desta face, pois nações vizinhas e grupos radicais, diante de um cenário de nação desarmada, podem tentar ocupar espaços vitais e estratégicos de seu território.

A Face do Governo Central

Processo similar ocorre quando a Face do Governo Central cresce sem necessidade ou por “ditas demandas políticas”. Há casos em que nações tidas como liberais e democráticas, com relativa solidez, sofrem as consequências nefastas da falta de cultura política de seus povos. Pois elegem membros do executivo e do legislativo que não possuem os escrúpulos imprescindíveis para exercerem seus cargos. Criam dezenas de ministérios apenas para terem uma “base aliada” a seu favor. Na verdade, são gestores da inutilidade e acreditam que, como afirmou em Paris o absolutista Luís XIV, O Estado Sou Eu (L’État C’est Moi).

Mediante essa visão, tornam o cidadão da nação em escravo do Estado; competem de forma descarada com a Face do Mercado e, não raro, levam-na ao caos. Enfim, roubam, desviam verbas públicas, mandam assassinar os que não os apoiam, dão força a “companheiros” e, por fim, destroem totalmente a estrutura do Poliedro.

A Face da Imprensa

Esta face normalmente é pequena e bem diversificada em nações sólidas, inclusive nas mais ricas. Em geral, cumprem suas missões de informar ao público o desempenho de todas as faces do Poliedro com relativa qualidade, pois tem a seu favor a educação e cultura dos cidadãos.

O mesmo não acontece em algumas das chamadas nações emergentes. A Face da Imprensa pode pertencer ao Governo Central, o que é um risco elevado para o cumprimento de sua missão informativa; ou pode ser restrita a grande grupos econômicos, que compactuam com as ditas iniciativas da Face do Governo Central.

Veja-se o caso do Brasil, com eleições presidenciais marcada para este ano. Tendo um Governo Central Paquidérmico, o quarto poder, sonega informação de desempenho nas reportagens e notícias que traz. Apresenta reflexões conflitantes entre seus comentaristas, que às vezes extrapolam em maçantes redundâncias.

Porém, ainda que com raras exceções, é grave o fato de que inúmeros jornalistas diplomados não seguem “direto ao ponto”, não criticam como deveriam, dado que ficam a fazer firulas culturais que nada informam aos cidadãos da nação. Isto sem falar da “casta de chapas-brancas”, paga com dinheiro público para garantir a continuidade do desgoverno.

Filhos, eu fui feito assim


Talvez não seja fácil mudar, mas, se necessário, é possível.

Ricardo Kohn

Ricardo Kohn

Para isso, conto com vocês. Conto com vocês para que tenhamos mais foco na grandeza do que nas fraquezas, na inteligência do que nas tolices e na aceitação mútua, que é capaz de apagar os riscos da intolerância.

Sei de boa parte de meus defeitos – falo demais, nem sempre ouço argumentos, me antecipo, elevo a voz, não escolho palavras, etc. O problema evidente é que, mesmo sabendo, muitas vezes ainda não consigo conte-los, sobretudo ao viver o auge de uma situação. Quando me apercebo, vejo-me tal qual um político, a responder a agressões de seus oponentes. E isso me faz mal, pois perco a razão, ainda que estivesse a meu lado.

Além disso, filhos nunca são oponentes, embora tenham todo o direito de discordar. Diria mesmo, o dever de discordar com argumentos próprios.

Por outro lado, também conheço minhas principais virtudes e não vou enumerá-las aqui. Mas são justamente elas que sempre desejo oferecer a meus filhos, através de comportamentos bem nítidos, que demonstrem de forma clara minhas posições perante quaisquer fatos. Foi e tem sido através delas que busquei manter meus filhos sadios e sociáveis.

Chamam a esse longo processo de “educar, oferecer a educação que é própria do ambiente da família”. E nele há um fato que não deve ser negligenciado: filhos não podem ser criados como se fossem propriedade dos pais, mas indivíduos livres para viverem nas ilhas da sociedade que escolherem. E a qualidade dessa liberdade desejada depende da educação que lhes foi transmitida ainda em terna idade, algo no entorno dos primeiros 6 anos. Esse é o grande desafio dos pais: estar presente e dar bons exemplos nesse primeiro período da vida dos filhos.

Orgulho-me dos filhos que ajudei a educar e, acima de tudo, de sua capacidade de discernir, de saber selecionar entre imitar meus defeitos ou ampliar as virtudes que lhes tentei transmitir. Filhos, sei que causei em vocês impactos ambientais adversos (meus defeitos). Mas também, afinal, proporcionei impactos benéficos (minhas virtudes).

Desejo que saibam que, tal como seu pai, vocês têm defeitos e virtudes. No entanto, pelo fato de suas virtudes serem mais amplas, bem além dos próprios defeitos, proponho que me deem uma contrapartida de educação; que, quando julgarem necessário, auxiliem-me na correção de meus defeitos. Assim sendo, conto com vocês.

Feliz 2014 para todos os filhos!

Arquitetura verde


Assisti em um canal a cabo à apresentação de trabalhos “criativos” de um arquiteto brasileiro. Ele produz móveis artesanais com fatias de troncos de árvore. O que passou na tela foram mesas, aparadores e bancos para sentar. Sem dúvida, móveis sofisticados e rústicos. Bem polidos e a aproveitar a sinuosidade das curvas do miolo da madeira, que demonstram a idade das vítimas da serra elétrica.

O que me chamou atenção foi a forma com que o profissional descreveu o uso de toras de árvores para fazer o que o programa considera ser arquitetura verde. Basicamente, disse que usa os restos de árvores já cortadas e que, se não fossem aproveitadas por ele, decerto virariam carvão. Com isso pretendeu eximir-se de qualquer culpa pelo desmatamento da floresta Amazônica e do bioma Mata Atlântica, de onde retira seus “elementos de arquitetura”.

Outro fato interessante é que seu trabalho se resume em fatiar, “adocicar quinas”, polir e lustrar as madeiras que adquire, cuja origem não declarou. Ou seja, serão toras fruto de manejo controlado ou provindas da fúria do desmatamento ilegal? Além disso, o profissional só faz apliques para sustentação das fatias de árvores sem vida e então as coloca na vitrine da loja. Realmente, uma fúria de criatividade.

Fica claro que os trabalhos do arquiteto nem de longe são similares aos do escultor, pintor, gravador e fotógrafo polonês, o judeu Frans Krajcberg. Krajcberg fez a arte crítica, unindo alta sensibilidade e denúncia em defesa das florestas, sobretudo da Amazônica. Usou raízes e troncos calcinados de árvores e arbustos para criar o que ficou chamado “CarbonizArte”.

Obra de Frans Krajcberg

Obra de Frans Krajcberg

Esse humilde artista é notório mundialmente. Após deixar a Polônia, esteve em Sttutgart, onde cursou a Academia de Belas Artes; morou em Paris e em Ibiza (Espanha); numa gruta no Pico de Cata Branca, região de Itabirito (MG); em Curitiba; no Rio de Janeiro; e, por fim, desde 1972, em Nova Viçosa (BA), onde se radicou de forma definitiva, como brasileiro naturalizado.

Casa em Nova Viçosa, onde vive a sete metros do chão

Casa em Nova Viçosa, onde vive a sete metros do chão

Em Nova Viçosa possui uma área com cerca de 1,2 km2. Lá fez seu atelier, que chamou de Sítio Natura. A área fora recoberta por Mata Atlântica, com formações de mata de restinga e manguezais. Mas quando Frans a adquiriu ela só possuía pequenos vestígios desse bioma. Então, ele próprio assumiu o compromisso de reflorestá-la e o fez.

Obviamente, a meu ver, presenteou-a com várias de suas obras, tendo o mar como um de seus vizinhos mais íntimos.

A aranha de Frans Krajcberg

A “aranha” de Frans Krajcberg

Exposição de obras de arte

Krajcberg teve e tem seus trabalhos expostos em vários espaços de arte pelo mundo. Apenas como exemplos ressalto o Instituto Frans Krajcberg, em Curitiba, o Espaço Krajcberg, no Museu de Montparnasse, em Paris, e o Museu Ecológico Frans Krajcberg, em Nova Viçosa, Bahia.

Declarações de Krajcberg

Em 1939, Frans perdeu toda a família, vítima do Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Chegou a servir no exército polonês por quatro anos e, terminada a guerra, abandonou a vida militar. Cursou engenharia na Universidade de Leningrado, na Rússia. Mas seu foco era a arte, como pintura, gravura e, mais tarde, escultura e fotografia. Suas palavras, ditas em diversas ocasiões, são capazes de demonstrar os medos que ultrapassou e seu próprio renascimento.

─ “Detestava os homens. Fugia deles. Levei anos para entrar na casa de alguma pessoa. Isolava-me completamente. A natureza me deu a força, devolveu-me o prazer de sentir, de pensar e de trabalhar. De sobreviver. Quando estou na natureza, penso a verdade, digo a verdade, exijo-me verdadeiro. Um dia me convidaram para ir ao norte do Paraná. As árvores eram como os homens calcinados pela guerra. Não suportei. Troquei minha casa por uma passagem de avião para o Rio”, em entrevista concedida para o catálogo de uma exposição de suas obras no Centro Cultural Banco do Brasil.

E depois, não sei exatamente em que situação, mostrou que nele estavam a nascer forças para superar os horrores por que passara na vida:

Frans Krajcberg

Frans Krajcberg

─ “Meus trabalhos são meu manifesto. O fogo é a morte, o abismo. Ele me acompanha desde sempre. A destruição tem formas. Eu procuro imagens para meu grito de revolta.

Mas foi justamente a solidão, com minas explosivas de sensibilidade, que o fizeram renascer:

─ “Eu mudei minha obra quando foi preciso. Mas eu mudei pessoalmente? Não. Eu achei outra natureza. Cada vez que mudava de lugar, minha obra mudou, não eu. Comecei a sofrer de modo diferente. Observava, queria captar a Natureza sofrida.”

Não tenho notícias de Frans Krajcberg nos dias de hoje. Sei que completou os 92 anos em 2012. Desejo que esteja em vias de completar 94, em abril de 2014, e que mantenha toda sua lucidez!

Sou humanista


Por Claudia Reis

Está nas redes sociais uma petição pública que pede a “reposição das perdas de aposentados e pensionistas do INSS”. Não tenho dúvida de que, em sã consciência, qualquer cidadão concorda com essa medida elementar. Agravada pelo fato que neste ano, até novembro de 2013, o povo brasileiro já pagou mais de 1 trilhão e meio de Reais em tributos e não teve o devido retorno em serviços públicos de qualidade.

Entretanto, a dita petição, que assinei e distribui na rede, está pessimamente justificada. Seu autor usou de “malícia política” para estimular assinaturas. Devo dizer, contudo, que recebi diversas mensagens de volta, provindas de pessoas que assinaram a petição. Pessoas com distintos matizes partidários e de todas as gerações.

União de gerações

União de gerações

Entretanto, chamou-me a atenção a mensagem que recebi de uma jovem, a quem muito prezo. Com certeza, por seu interesse, leu o longo e confuso texto que motiva a petição e, com elegância, demonstrou que não concorda com as acusações políticas que dela constam. Sem dúvida, desnecessárias.

Por se tratar de assunto tão relevante, o questionamento desta jovem motivou-me a publicar neste blog o texto que se segue.

Minha querida amiga,

Também não acho que os problemas da nação sejam culpa exclusiva do PT, mas sim da própria sociedade brasileira, que é individualista e não consegue ter a fundamental visão de longo prazo, das consequências do caminho que está a trilhar. Pode ficar tranquila, pois tenho certeza que não discordamos. Não sou de esquerda ou de direita e muito menos fico em cima do muro.

Posso afirmar, com todas as letras, que sou “Humanista“. O ódio entre as diversas classes sociais, políticas e culturais, que está instalado no Brasil, me faz muito mal. Ver as pessoas se digladiando como se estivessem no Coliseu, causa-me tristeza.

Como não redigi a dita petição, confesso que não dei bola para as agressões ao PT, pois há muito convivo com vários idosos. Mais de perto, com duas tias das quais sou responsável (94 e 90 anos). Sinto na pele como essa faixa etária é negligenciada pelo Estado Brasileiro e pela sociedade. E esse sentimento fala muito mais alto do que qualquer disputa partidária.

Ver uma pessoa com 94 anos ser intimada todos os anos pela Receita Federal para provar suas despesas médicas declaradas no IR é duro de aceitar. Se já é ruim o suficiente alguém saber que está no final da vida, vendo amigos e entes queridos a partir, imagine ainda ficar preocupada em como pagar pelos remédios de que precisa; pagar pelo atendimento médico que não lhe é disponibilizado; e, ainda por cima, saber que trabalhou e contribuiu por tanto tempo para uma nação que não lhe dá valor ou qualquer assistência. No mínimo, assistência emocional.

Para finalizar, pelo fato de que esse blog tem cunho humanista, entendo que cada cidadão deva refletir sobre quais são as metas da gestão pública: serão as práticas partidárias imediatistas ou o atendimento das necessidades sociais básicas (educação, saúde e segurança) de todas as classes de sua população?

É por isso, minha amiga, que o cunho político-partidário no meio desta petição não me chamou atenção. Meu sentimento é tão forte que, diante deste cenário secular de descasos, que se agrava a cada ano, já até pensei em estabelecer o limite de minha própria vida. Sem suicídio, que fique claro.

Espero que todos os leitores do blog possam refletir sobre essa posição.

Um beijo sincero para você.

Educar e amestrar


Aqueles que educam, ou promovem a educação em uma sociedade, estão a visar o futuro da nação. Sobretudo, das nações democráticas que pressentem o valor de possuírem uma sociedade civilizada e produtiva. Vários são os estudos da ONU e de outras instituições do mesmo tope que demonstram que educar uma sociedade inteira não é um sonho, mas um projeto óbvio a ser realizado.

Entretanto, no outro extremo, há os que desejam manipular contingentes de pessoas, amestrar o que chamam de “povo” ou “sociedade de massa”. Parecem crer que, somente pela dominação, organizarão o espaço que desejam para realizarem a gestão pública, de preferência sem forças de oposição. Têm profundo ódio pela educação, debates e reflexões, pois vendem-se em palanques, a propalar ideologias a serem seguidas, mas já extintas em passado longínquo. Afinal, ideologias não educam, no máximo amestram, dado que obrigam ao gado ideologizado trilhar atalhos entre precipícios profundos e escuros.

Ensaiando o gestual para o palanque

Ensaiando o gestual para o palanque

Em pleno século 21, esses dois tipos de personagem ainda coexistem, apesar de ocuparem posições bem distintas na sociedade.

Os educadores normalmente possuem elevado nível de formação e boa flexibilidade em sua argumentação. São professores e pesquisadores que fazem das escolas um espaço de socialização do conhecimento e das experiências. Na área das ciências humanas permitem (e até esperam) que seus alunos divirjam dos “contextos estabelecidos”. Ensinam como participar de debates democráticos. Induzem-nos a pensar, a refletirem e assim criarem suas próprias convicções, com premissas justificáveis. Portanto, não adotam cartilhas ideológicas a serem perseguidas.

Os amestradores, no mais das vezes, são incultos, agressivos e arrogantes [1]. Até porque, de alguma maneira, um dia eles mesmos foram os amestrados. Seguem de forma obstinada as receitas de cartilhas ideológicas. Não admitem que um participante do culto de amestramento tenha qualquer dúvida ou divergência sobre o que dizem, embora mintam descaradamente e contem casos que nunca aconteceram. Têm pelo menos dois desejos ardentes: ficarem muito ricos rapidamente e ocuparem cargos públicos nas altas esferas, de preferência como políticos de destaque para os amestrados.

Os cidadãos formados por esses agentes da sociedade são rebatimentos dos processos por que passaram. Suas ações durante toda a vida são uma espécie de “força resultante” do que receberam com mais ênfase: educação ou amestramento. Os educados formam a sociedade, a nação. Ao contrário, em muitos países, os amestrados organizam quadrilhas de ladrões para roubar a nação.

Não há dúvida que, vistos por esse prisma, educar e amestrar são dois processos muito distintos, que podem conduzir a cenários favoráveis de desenvolvimento ou a insustentáveis desgraças nacionais. A escolha é da Sociedade.


[1] Podem existir amestradores com formação e cultura. No entanto, não possuem a diversidade de pensamento e seguem sempre a mesma cartilha, normalmente ideológica.