Filhos, eu fui feito assim


Talvez não seja fácil mudar, mas, se necessário, é possível.

Ricardo Kohn

Ricardo Kohn

Para isso, conto com vocês. Conto com vocês para que tenhamos mais foco na grandeza do que nas fraquezas, na inteligência do que nas tolices e na aceitação mútua, que é capaz de apagar os riscos da intolerância.

Sei de boa parte de meus defeitos – falo demais, nem sempre ouço argumentos, me antecipo, elevo a voz, não escolho palavras, etc. O problema evidente é que, mesmo sabendo, muitas vezes ainda não consigo conte-los, sobretudo ao viver o auge de uma situação. Quando me apercebo, vejo-me tal qual um político, a responder a agressões de seus oponentes. E isso me faz mal, pois perco a razão, ainda que estivesse a meu lado.

Além disso, filhos nunca são oponentes, embora tenham todo o direito de discordar. Diria mesmo, o dever de discordar com argumentos próprios.

Por outro lado, também conheço minhas principais virtudes e não vou enumerá-las aqui. Mas são justamente elas que sempre desejo oferecer a meus filhos, através de comportamentos bem nítidos, que demonstrem de forma clara minhas posições perante quaisquer fatos. Foi e tem sido através delas que busquei manter meus filhos sadios e sociáveis.

Chamam a esse longo processo de “educar, oferecer a educação que é própria do ambiente da família”. E nele há um fato que não deve ser negligenciado: filhos não podem ser criados como se fossem propriedade dos pais, mas indivíduos livres para viverem nas ilhas da sociedade que escolherem. E a qualidade dessa liberdade desejada depende da educação que lhes foi transmitida ainda em terna idade, algo no entorno dos primeiros 6 anos. Esse é o grande desafio dos pais: estar presente e dar bons exemplos nesse primeiro período da vida dos filhos.

Orgulho-me dos filhos que ajudei a educar e, acima de tudo, de sua capacidade de discernir, de saber selecionar entre imitar meus defeitos ou ampliar as virtudes que lhes tentei transmitir. Filhos, sei que causei em vocês impactos ambientais adversos (meus defeitos). Mas também, afinal, proporcionei impactos benéficos (minhas virtudes).

Desejo que saibam que, tal como seu pai, vocês têm defeitos e virtudes. No entanto, pelo fato de suas virtudes serem mais amplas, bem além dos próprios defeitos, proponho que me deem uma contrapartida de educação; que, quando julgarem necessário, auxiliem-me na correção de meus defeitos. Assim sendo, conto com vocês.

Feliz 2014 para todos os filhos!

Arquitetura verde


Assisti em um canal a cabo à apresentação de trabalhos “criativos” de um arquiteto brasileiro. Ele produz móveis artesanais com fatias de troncos de árvore. O que passou na tela foram mesas, aparadores e bancos para sentar. Sem dúvida, móveis sofisticados e rústicos. Bem polidos e a aproveitar a sinuosidade das curvas do miolo da madeira, que demonstram a idade das vítimas da serra elétrica.

O que me chamou atenção foi a forma com que o profissional descreveu o uso de toras de árvores para fazer o que o programa considera ser arquitetura verde. Basicamente, disse que usa os restos de árvores já cortadas e que, se não fossem aproveitadas por ele, decerto virariam carvão. Com isso pretendeu eximir-se de qualquer culpa pelo desmatamento da floresta Amazônica e do bioma Mata Atlântica, de onde retira seus “elementos de arquitetura”.

Outro fato interessante é que seu trabalho se resume em fatiar, “adocicar quinas”, polir e lustrar as madeiras que adquire, cuja origem não declarou. Ou seja, serão toras fruto de manejo controlado ou provindas da fúria do desmatamento ilegal? Além disso, o profissional só faz apliques para sustentação das fatias de árvores sem vida e então as coloca na vitrine da loja. Realmente, uma fúria de criatividade.

Fica claro que os trabalhos do arquiteto nem de longe são similares aos do escultor, pintor, gravador e fotógrafo polonês, o judeu Frans Krajcberg. Krajcberg fez a arte crítica, unindo alta sensibilidade e denúncia em defesa das florestas, sobretudo da Amazônica. Usou raízes e troncos calcinados de árvores e arbustos para criar o que ficou chamado “CarbonizArte”.

Obra de Frans Krajcberg

Obra de Frans Krajcberg

Esse humilde artista é notório mundialmente. Após deixar a Polônia, esteve em Sttutgart, onde cursou a Academia de Belas Artes; morou em Paris e em Ibiza (Espanha); numa gruta no Pico de Cata Branca, região de Itabirito (MG); em Curitiba; no Rio de Janeiro; e, por fim, desde 1972, em Nova Viçosa (BA), onde se radicou de forma definitiva, como brasileiro naturalizado.

Casa em Nova Viçosa, onde vive a sete metros do chão

Casa em Nova Viçosa, onde vive a sete metros do chão

Em Nova Viçosa possui uma área com cerca de 1,2 km2. Lá fez seu atelier, que chamou de Sítio Natura. A área fora recoberta por Mata Atlântica, com formações de mata de restinga e manguezais. Mas quando Frans a adquiriu ela só possuía pequenos vestígios desse bioma. Então, ele próprio assumiu o compromisso de reflorestá-la e o fez.

Obviamente, a meu ver, presenteou-a com várias de suas obras, tendo o mar como um de seus vizinhos mais íntimos.

A aranha de Frans Krajcberg

A “aranha” de Frans Krajcberg

Exposição de obras de arte

Krajcberg teve e tem seus trabalhos expostos em vários espaços de arte pelo mundo. Apenas como exemplos ressalto o Instituto Frans Krajcberg, em Curitiba, o Espaço Krajcberg, no Museu de Montparnasse, em Paris, e o Museu Ecológico Frans Krajcberg, em Nova Viçosa, Bahia.

Declarações de Krajcberg

Em 1939, Frans perdeu toda a família, vítima do Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Chegou a servir no exército polonês por quatro anos e, terminada a guerra, abandonou a vida militar. Cursou engenharia na Universidade de Leningrado, na Rússia. Mas seu foco era a arte, como pintura, gravura e, mais tarde, escultura e fotografia. Suas palavras, ditas em diversas ocasiões, são capazes de demonstrar os medos que ultrapassou e seu próprio renascimento.

─ “Detestava os homens. Fugia deles. Levei anos para entrar na casa de alguma pessoa. Isolava-me completamente. A natureza me deu a força, devolveu-me o prazer de sentir, de pensar e de trabalhar. De sobreviver. Quando estou na natureza, penso a verdade, digo a verdade, exijo-me verdadeiro. Um dia me convidaram para ir ao norte do Paraná. As árvores eram como os homens calcinados pela guerra. Não suportei. Troquei minha casa por uma passagem de avião para o Rio”, em entrevista concedida para o catálogo de uma exposição de suas obras no Centro Cultural Banco do Brasil.

E depois, não sei exatamente em que situação, mostrou que nele estavam a nascer forças para superar os horrores por que passara na vida:

Frans Krajcberg

Frans Krajcberg

─ “Meus trabalhos são meu manifesto. O fogo é a morte, o abismo. Ele me acompanha desde sempre. A destruição tem formas. Eu procuro imagens para meu grito de revolta.

Mas foi justamente a solidão, com minas explosivas de sensibilidade, que o fizeram renascer:

─ “Eu mudei minha obra quando foi preciso. Mas eu mudei pessoalmente? Não. Eu achei outra natureza. Cada vez que mudava de lugar, minha obra mudou, não eu. Comecei a sofrer de modo diferente. Observava, queria captar a Natureza sofrida.”

Não tenho notícias de Frans Krajcberg nos dias de hoje. Sei que completou os 92 anos em 2012. Desejo que esteja em vias de completar 94, em abril de 2014, e que mantenha toda sua lucidez!

Sou humanista


Por Claudia Reis

Está nas redes sociais uma petição pública que pede a “reposição das perdas de aposentados e pensionistas do INSS”. Não tenho dúvida de que, em sã consciência, qualquer cidadão concorda com essa medida elementar. Agravada pelo fato que neste ano, até novembro de 2013, o povo brasileiro já pagou mais de 1 trilhão e meio de Reais em tributos e não teve o devido retorno em serviços públicos de qualidade.

Entretanto, a dita petição, que assinei e distribui na rede, está pessimamente justificada. Seu autor usou de “malícia política” para estimular assinaturas. Devo dizer, contudo, que recebi diversas mensagens de volta, provindas de pessoas que assinaram a petição. Pessoas com distintos matizes partidários e de todas as gerações.

União de gerações

União de gerações

Entretanto, chamou-me a atenção a mensagem que recebi de uma jovem, a quem muito prezo. Com certeza, por seu interesse, leu o longo e confuso texto que motiva a petição e, com elegância, demonstrou que não concorda com as acusações políticas que dela constam. Sem dúvida, desnecessárias.

Por se tratar de assunto tão relevante, o questionamento desta jovem motivou-me a publicar neste blog o texto que se segue.

Minha querida amiga,

Também não acho que os problemas da nação sejam culpa exclusiva do PT, mas sim da própria sociedade brasileira, que é individualista e não consegue ter a fundamental visão de longo prazo, das consequências do caminho que está a trilhar. Pode ficar tranquila, pois tenho certeza que não discordamos. Não sou de esquerda ou de direita e muito menos fico em cima do muro.

Posso afirmar, com todas as letras, que sou “Humanista“. O ódio entre as diversas classes sociais, políticas e culturais, que está instalado no Brasil, me faz muito mal. Ver as pessoas se digladiando como se estivessem no Coliseu, causa-me tristeza.

Como não redigi a dita petição, confesso que não dei bola para as agressões ao PT, pois há muito convivo com vários idosos. Mais de perto, com duas tias das quais sou responsável (94 e 90 anos). Sinto na pele como essa faixa etária é negligenciada pelo Estado Brasileiro e pela sociedade. E esse sentimento fala muito mais alto do que qualquer disputa partidária.

Ver uma pessoa com 94 anos ser intimada todos os anos pela Receita Federal para provar suas despesas médicas declaradas no IR é duro de aceitar. Se já é ruim o suficiente alguém saber que está no final da vida, vendo amigos e entes queridos a partir, imagine ainda ficar preocupada em como pagar pelos remédios de que precisa; pagar pelo atendimento médico que não lhe é disponibilizado; e, ainda por cima, saber que trabalhou e contribuiu por tanto tempo para uma nação que não lhe dá valor ou qualquer assistência. No mínimo, assistência emocional.

Para finalizar, pelo fato de que esse blog tem cunho humanista, entendo que cada cidadão deva refletir sobre quais são as metas da gestão pública: serão as práticas partidárias imediatistas ou o atendimento das necessidades sociais básicas (educação, saúde e segurança) de todas as classes de sua população?

É por isso, minha amiga, que o cunho político-partidário no meio desta petição não me chamou atenção. Meu sentimento é tão forte que, diante deste cenário secular de descasos, que se agrava a cada ano, já até pensei em estabelecer o limite de minha própria vida. Sem suicídio, que fique claro.

Espero que todos os leitores do blog possam refletir sobre essa posição.

Um beijo sincero para você.

Educar e amestrar


Aqueles que educam, ou promovem a educação em uma sociedade, estão a visar o futuro da nação. Sobretudo, das nações democráticas que pressentem o valor de possuírem uma sociedade civilizada e produtiva. Vários são os estudos da ONU e de outras instituições do mesmo tope que demonstram que educar uma sociedade inteira não é um sonho, mas um projeto óbvio a ser realizado.

Entretanto, no outro extremo, há os que desejam manipular contingentes de pessoas, amestrar o que chamam de “povo” ou “sociedade de massa”. Parecem crer que, somente pela dominação, organizarão o espaço que desejam para realizarem a gestão pública, de preferência sem forças de oposição. Têm profundo ódio pela educação, debates e reflexões, pois vendem-se em palanques, a propalar ideologias a serem seguidas, mas já extintas em passado longínquo. Afinal, ideologias não educam, no máximo amestram, dado que obrigam ao gado ideologizado trilhar atalhos entre precipícios profundos e escuros.

Ensaiando o gestual para o palanque

Ensaiando o gestual para o palanque

Em pleno século 21, esses dois tipos de personagem ainda coexistem, apesar de ocuparem posições bem distintas na sociedade.

Os educadores normalmente possuem elevado nível de formação e boa flexibilidade em sua argumentação. São professores e pesquisadores que fazem das escolas um espaço de socialização do conhecimento e das experiências. Na área das ciências humanas permitem (e até esperam) que seus alunos divirjam dos “contextos estabelecidos”. Ensinam como participar de debates democráticos. Induzem-nos a pensar, a refletirem e assim criarem suas próprias convicções, com premissas justificáveis. Portanto, não adotam cartilhas ideológicas a serem perseguidas.

Os amestradores, no mais das vezes, são incultos, agressivos e arrogantes [1]. Até porque, de alguma maneira, um dia eles mesmos foram os amestrados. Seguem de forma obstinada as receitas de cartilhas ideológicas. Não admitem que um participante do culto de amestramento tenha qualquer dúvida ou divergência sobre o que dizem, embora mintam descaradamente e contem casos que nunca aconteceram. Têm pelo menos dois desejos ardentes: ficarem muito ricos rapidamente e ocuparem cargos públicos nas altas esferas, de preferência como políticos de destaque para os amestrados.

Os cidadãos formados por esses agentes da sociedade são rebatimentos dos processos por que passaram. Suas ações durante toda a vida são uma espécie de “força resultante” do que receberam com mais ênfase: educação ou amestramento. Os educados formam a sociedade, a nação. Ao contrário, em muitos países, os amestrados organizam quadrilhas de ladrões para roubar a nação.

Não há dúvida que, vistos por esse prisma, educar e amestrar são dois processos muito distintos, que podem conduzir a cenários favoráveis de desenvolvimento ou a insustentáveis desgraças nacionais. A escolha é da Sociedade.


[1] Podem existir amestradores com formação e cultura. No entanto, não possuem a diversidade de pensamento e seguem sempre a mesma cartilha, normalmente ideológica.

Eu acuso


Eu acuso

Por Luiz Felipe Pondé, republicação da Folha de São Paulo, 04/11/2013.

Muitos alunos de universidade e ensino médio estão sendo acuados em sala de aula por recusarem a pregação marxista. São reprovados em trabalhos ou taxados de egoístas e insensíveis. No Enem, questões ideológicas obrigam esses jovens a “fingirem” que são marxistas para não terem resultados ruins.

Estamos entrando numa época de trevas no país. O bullying ideológico com os mais jovens é apenas o efeito, a causa é maior. Vejamos.

No cenário geral, desde a maldita ditadura, colou no país a imagem de que a esquerda é amante da liberdade. Mentira. Só analfabeto em história pensa isso. Também colou a imagem de que ela foi vítima da ditadura. Claro, muitas pessoas o foram, sofreram terríveis torturas e isso deve ser apurado. Mas, refiro-me ao projeto político da esquerda. Este se saiu muito bem porque conseguiu vender a imagem de que a esquerda é amante da liberdade, quando na realidade é extremamente autoritária.

Nas universidades, tomaram as ciências humanas, principalmente as sociais, a ponto de fazerem da universidade púlpito de pregação. No ensino médio, assumem que a única coisa que os alunos devem conhecer como “estudo do meio” é a realidade do MST, como se o mundo fosse feito apenas por seus parceiros políticos. Demonizam a atividade empresarial como se esta fosse feita por criminosos usurários. Se pudessem, sacrificariam um Shylock [1] por dia.

Estamos entrando num período de trevas. Nos partidos políticos, a seita tomou o espectro ideológico na sua quase totalidade. Só há partidos de esquerda, centro-esquerda, esquerda corrupta (o que é normalíssimo) e do “pântano“. Não há outra opção.

A camada média dos agentes da mídia também é bastante tomada por crentes. A própria magistratura não escapa da influência do credo em questão. Artistas brincam de amantes dos “Black blocs” e se esquecem que tudo vem do mercado de bens culturais. Mas o fato é que brincar de simpatizante de mascarado vende disco.

Em vez do debate de ideias, passam à violência difamatória, intimidação e recusam o jogo democrático em nome de uma suposta santidade política e moral que a história do século 20 na sua totalidade desmente. Usam táticas do fascismo mais antigo: eliminar o descrente antes de tudo pela redução dele ao silêncio, apostando no medo.

Mesmos os institutos culturais financiados por bancos despejam rios de dinheiro na formação de jovens intelectuais contra a sociedade de mercado, contra a liberdade de expressão e a favor do flerte com a violência “revolucionária“.

Além da opção dos bancos por investirem em intelectuais da seita marxista (e suas similares), como a maioria esmagadora dos departamentos de ciências humanas estão fechados aos não crentes, dezenas de jovens não crentes na seita marxista soçobram no vazio profissional.

Bullying ideológico

Bullying ideológico

Logo quase não haverá resistência ao ataque à democracia entre nós. A ameaça da ditadura volta, não carregada por um golpe, mas erguida por um lento processo de aniquilamento de qualquer pensamento possível contra a seita.

E aí voltamos aos alunos. Além de sofrerem nas mãos de professores (claro que não se trata da totalidade da categoria) que acuam os não crentes, acusando-os de antiéticos porque não comungam com a crença “cubana“, muitos desses jovens veem seu dia a dia confiscado pelo autoritarismo de colegas que se arvoram em representantes dos alunos ou das instituições de ensino, criando impasses cotidianos como invasão de reitorias e greves votadas por uma minoria que sequestra a liberdade da maioria de viver sua vida em paz.

Muitos desses movimentos são autoritários, inclusive porque trabalham também com a intimidação e difamação dos colegas não crentes. Pura truculência ideológica.

Como estes não crentes não formam um grupo, não são articulados nem têm tempo para sê-lo, a truculência dos autoritários faz um estrago diante da inexistência de uma resistência organizada.

Recebo muitos e-mails desses jovens. Um deles, especificamente, já desistiu de dois cursos de humanas por não aceitar a pregação. Uma vergonha para nós.

Luiz Felipe Pondé, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap.


[1] Nota do blog: Shylock é um personagem fictício da peça O Mercador de Veneza, escrita por William Shakespeare.

Black Friday no Brasil


No início da década de 1960 o comércio de varejo norte-americano criou um evento para estimular suas vendas de fim de ano: o Black Friday. Acontece sempre na última sexta-feira de novembro, após o Thanksgiving Day, que é uma espécie de dia de ação de graças ou Dia do Agradecer. Ambos estão em pleno acordo com a cultura do país.

Dessa forma, essa sexta de novembro tornou-se a largada do maior páreo dos consumistas de que se tem notícia, abrindo um período de compras compulsivas que, em tese, somente terminam após o Natal. Mas, pelo menos nos grandes centros urbanos, os consumidores americanos são relativamente educados.

Black Friday nos USA

Uma imagem do Black Friday nos USA

Um pouco de história

O Thanksgiving Day é bem mais antigo do que o Black Friday, pois é comemorado naquele país desde 1621. Trata-se de data considerada religiosa, mas que, desde sua origem, tem cunho econômico. Afinal, era destinado “a agradecer as boas colheitas obtidas no ano” e, claro, ao dinheiro que entrava no bolso dos “agradecidos”. Todavia, não sabemos a quem, de fato, destinavam-se esses agradecimentos. Daí seu caráter imaterial, de uma espécie de religião agrícola.

Temos que levar em consideração de que o Thanksgiving Day foi criado quase no meio da Idade Moderna. O mundo ocidental de então funcionava mais ou menos assim: muito trabalho árduo para buscar a melhoria da qualidade de vida das pessoas comuns (ordinary people). Porém, nada caía do céu para elas, que tinham de “ralar” muito para chegar ao Dia do Agradecer. Naquela época, somente a Igreja e a Aristocracia possuíam esse Direito Divino, herdado de seus antepassados.

Assim, acreditamos que não há como separar o Black Friday do Thanksgiving Day. O BF é filho legítimo e temporão do TD.

Black Friday em outros países

Austrália, Canadá, Inglaterra, Portugal, Paraguai e até mesmo o Brasil, adotaram essa prática comercial estadunidense. Deve ocorrer em outros países, mas desconhecemos. Em países de língua inglesa já era de se esperar essa iniciativa, pois suas culturas eram e são compatíveis.

Em Portugal essa moda chegou, mas de forma discreta. Poucas são as lojas do comércio que fazem espalhafato com suas mercadorias.

No entanto, na América do Sul talvez haja ocorrido mais um desvio cultural, em especial nos países que desejam se manter como eternas colônias de outras nações. Sobre o último Black Friday no Paraguai, nada sabemos. Todavia, no do Brasil, ocorrido ontem, temos algumas informações.

Aconteceu a loucura generalizada em shoppings, mega-stores, magazines e supermarkets. A língua falada e impressa nesses ambientes foi o inglês-americano. Cartazes de Sales Tudo e Off Alguma Coisa foram o fundamento da desordem comercial. As maiores ofertas recaíram sobre produtos eletrônicos Made in China.

O organizado Black Friday no Brasil

Imagem do organizado Black Friday no Brasil

A frase de um quase freguês do Brazilian Black Friday sintetiza a armadilha que lhe foi armada:

─ “Semana passada as lojas dobraram os preços de todas as mercadorias em estoque. Hoje oferecem-nas com cartazes de até 40% Off”.

Os mais apressados foram literalmente entubados por essa estranha modalidade comercial, nacionalizada no Brasil como “Black Fuck”. Resta dizer que já está conhecida no país como “Trepada na Escuridão”.

Reflexões

Temos dúvida de onde surgiu a iniciativa de “importar” esse tipo de comércio americano para o Brasil. Sabemos que famílias mais abastadas viajam constantemente para fazer compras em Nova York, Miami, Califórnia, etc. Em 2013, mesmo sem o pérfido controle do câmbio, os gastos ocorridos nessas viagens atingiram a vários bilhões de dólares, chegando a afetar nossa frágil balança comercial.

Em outras palavras, há uma boa demanda reprimida no país e nossa indústria, por falta de políticas governamentais adequadas, está forçada a encolher e a tornar-se incapaz de atender aos anseios de parte da sociedade brasileira. Justamente aquela que pode gerar uma economia produtiva.

Estou sendo atacado!


Na verdade, estamos todos sendo atacados…

Por Zik Sênior, o eremita.

Zik Sênior

Zik Sênior

Desde que comprei o pequeno noutebuque, por recomendação do português – exato, do Simão-pescador –, que fui orientado a criar um e-mail pessoal para podermos conversar. Recebi aulas do filho de meu vizinho, tal como Simão, do Quincas. Fabuloso!

Simão e eu conversamos “por satélites” quase que diariamente. Eu daqui e ele lá das Maçãs. Sinto saudades daquele lugar. Tem a poesia do cheiro do mar, da força de suas falésias e do despertar matutino. E tudo isso cabe nas pétalas de uma flor praiana.

Vista panorâmica da Praia das Maçãs

Vista panorâmica da Praia das Maçãs

Imagem florida da Maçãs

Imagem florida da Praia das Maçãs

Creio que o uso da internet vicia a qualquer um, mesmo aos da minha idade (104). Desde que acordo ligo o computador para ver e-mails e passear pela rede. Já descobri um monte de coisas inimagináveis: revistas, jornais, lojas comerciais de tudo, bancos, saites políticos, previsão do tempo e muito mais. Existem até saites de sacanagem, os quais não visito. Mas acreditem, já fiz compra pela internet e recebi, aqui na porta de casa, o sofá que paguei a distância!

Todavia, desde fins de agosto que tenho notado em meu e-mail o início da invasão de Spam. Conversei com Simão a respeito e ele me disse que essa invasão iria piorar muito com as proximidades do Natal.

─ “Zik, se hoje tu estás a receber 40 Spam por dia, aguarde. Em novembro e dezembro vais receber mais de 300, diariamente!”.

Pensei, cá com meus botões, que a ideia de criar um espaço só para receber os Spam foi muito boa. Seria tenebroso caso se misturassem com e-mails normais na Caixa de Entrada. Depois fiquei sabendo que, nos primórdios do e-mail (1992), era assim que funcionava: todos embolados numa única Caixa.

Simão estava certo. Desde de fins de outubro comecei a receber cerca de 100 Spam diários. Todos para vender de alguma coisa com “desconto”. Parece até que estão combinados. E chamam desconto de Off; você que se contorça para entender o que significa “c/ 15% Off”.

Tentam vender de tudo, mas abordam muito mal os compradores. O resultado provável é que, de tanto incomodarem as pessoas, venderão nada e terão zero de faturamento. Seguem alguns exemplos de Spam que escolhi aleatoriamente. Vejam a burrice dessas comunicações comerciais:

  • Gigante-Natal: Kit Ferramentas | Nível a Laser | Luminária Led Braço Articulado Leitura | Fichário de Pôquer c/…
  • Vendas-Zanel: Feliz Natal e Próspero Ano Novo – Zanel EPI`s.
  • Parceiros-Centauro: Até 64% Off neste e-mail ou 15% Off nos Equipamentos. Acabe com o Estoque!
  • Mega Lipo: Agora você pode!
  • Compara Descontos: Tablets c/ 15% Off. Tv Led 42.

A meu ver, esses Spam só conseguem vender alguma coisa para pessoas providas de muito pouca inteligência. Além da completa falta de comunicação que é peculiar a todos, só de pensar na possibilidade terem links para saites com vírus, evidentemente fico apavorado. Abrir um e-mail desses e seguir o link é outra burrice.

Em minha opinião, na qualidade de “usuário imaturo da internet”, todas as empresas provedoras de e-mail deveriam criar uma função especial: a do bloqueio de e-mails. Sumiriam todos os Spam que tanto incomodam aos mais higiênicos virtuais e as “viroses” atacariam menos os computadores do planeta.

Hoje já recebi mais de 320 Spam. Trata-se de um ataque cerrado. Imagino qual será o tamanho da invasão de dezembro. Não sei como tantos conseguem descobrir o e-mail dos outros. Porém, bastaria existir apenas o um ícone de “Bloquear E-mail ”. Ao clicar nele diria-se adeus ao emitente da sujeira!